quinta-feira, 19 de julho de 2012

Jovem com Síndrome de Down tira nota máxima no vestibular italiano

Recebi essa reportagem pela internet e resolvi compartilhar... qualquer maneira de inclusão vale a pena...
Enrico Cancelli foi mais forte que as dificuldades
ROMA, quarta-feira, 18 de julho de 2012 (ZENIT.org) - Enrico Cancelli, jovem de Trieste, no nordeste italiano, deu um pontapé nas limitações impostas pela síndrome de Down e tirou a nota máxima no esame di maturità, que serve para a admissão à universidade e equivale, de certa forma, ao vestibular brasileiro.
Diploma profissional
O momento da virada para o estudante veio em 2009, quando ele começou a usar uma técnica que permite superar as lacunas entre a capacidade cognitiva e expressiva.
Enquanto aperta nas mãos o seu certificado de aprovação, Enrico sorri, perplexo e travesso. É o mesmo sorriso que ele mostra minutos mais tarde, posando para as fotos com a professora e com o conselho. O exame é um desafio para todos e o primeiro grande encontro com a vida. Mas para Enrico Cancelli, os encontros com a vida começaram bem antes.
A síndrome de Down, combinada com uma severa dificuldade de comunicação, transformou numa cruel ladeira acima o que para outros é a estrada normal da vida. Mas a resiliência é uma virtude que não falta para Enrico. O sucesso na escola é apenas o seu teste mais recente.
Seguindo um percurso misto, reduzido em tempo, mas não em qualidade, Enrico trabalhou em uma empresa de Monrupino, acompanhado pelo tutor Haron Marucelli, que o preparou para a criação de ovinos. A criação de ovelhas, aliás, foi o tema do exameem que Enricoconquistou a nota máxima. E será também a área em que ele quer trabalhar no futuro.
Comunicação facilitada
Enrico Cancelli aprendeu a técnica da comunicação facilitada, implementada na Austrália nos anos 1970 graças ao trabalho de uma associação de apoio a portadores de necessidades especiais.
Nascido com a síndrome de Down, Enrico foi uma criança feliz nos primeiros anos de escola, propenso a cantar e a brincar. Na adolescência, porém, veio a consciência da diversidade e começaram os primeiros golpes morais. Ele se fechou, parou de falar, parou de cantar. Deixou de se comunicar. "A reviravolta no caminho da aprendizagem, e da vida, veio em 2009, quando nos aproximamos da técnica de comunicação facilitada, que foca nas pessoas pessoas deficientes que têm transtornos de linguagem", explica Bianca Mestroni, mãe de Enrico.
A comunicação facilitada serve de ponte entre as competências cognitivas e expressivas, usando teclados ou letras do alfabeto. “É necessária a presença de um facilitador: uma pessoa treinada que, sem intervir, sustenta a mão, o punho, o cotovelo ou o braço do paciente para que ele digite em um teclado de computador”, explica Michela Manca, professora de Enrico. O objetivo final é que o paciente conquiste a autonomia comunicativa que lhe falta.
"Eu sofria como um cachorro"
Assim que conseguiu se comunicar com os outros, Enrico contou um pouco do acúmulo de sofrimentos que suportou durante anos.
Desde 2009, ele renasceu. Apenas três meses após o início da experiência, Enrico escreveu: "Até agora, eu não sabia como responder, e sofria como um cachorro na minha deficiência". Duas pessoas o acompanharam na trajetória de maneira muito especial: a professora Michela, que está com ele desde 2009, e Gianna Stabile Bonifacio, sua guia espiritual que o ajudou na catequese e a editar o boletim da paróquia.
Sem a comunicação facilitada, Enrico era descrito como portador de "um grave retardo mental". Depois da experiência, Enrico escreveu na primeira página do seu exame: “Monrupino, oásis feliz onde encontrar a paz e os sonhos dourados de poéticas aspirações! Empregarei todos os meios para permanecer e trabalhar em terras assim tão férteis, correndo irresistivelmente rumo à minha vida resgatada!”.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Valorização dos profissionais de educação infantil

Acabo de ler uma pesquisa que declara que as creches e escolas de educação infantil que têm diretores com mais de 15 anos de formados e que tem o salário superior a quatro salários mínimos prezam pela qualidade.
Sinceramente?  Sobre os 15 anos de formados tudo bem, eu acredito que quem tem mais anos de formação tem mais experiência e consequentemente pode administrar melhor uma instituição, mas sobre o salário... o que comentar?
Pensem só, se o diretor ganha menos do que quatro salários mínimos quanto ganham os professores, os auxiliares de creches, os cozinheiros e os faxineiros?
Precisa fazer pesquisa para descobrir isso?
Se os profissionais que trabalham com as crianças não são valorizados financeiramente, não ganham o suficiente nem para se sustentar, para comer de maneira decente e para pagar suas contas, como vão investir em aperfeiçoamento e qualidade?  Como vão ter alegria de trabalhar com nossas crianças se mal conseguem sobreviver?
É deprimente ver que uma pesquisa "descobrindo" que existam diretores que ganham menos de quatro salários mínimos e que isso faz decair a qualidade do trabalho desenvolvido. 

Está na hora da sociedade valorizar os profissionais de educação, afinal são eles que vão contribuir para o futuro de cada criança desse país.  Se não valorizam nem quem tem a função de ensinar o básico - os profissionais de educação infantil - quem dirá os profissionais que acompanham o resto da vida escolar de nossas crianças.

Acorda Brasil!  Ou isso muda ou não tem como melhorar a educação no país!  Não adianta o país dizer que têm todas as crianças na escola, que diminuiu o número de analfabetos, quando os profissionais são desvalorizados dessa maneira...

Vamos pensar no presente da nação investindo em quem faz o presente acontecer!

É isso... Vanessa Gerhard

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Texto de Eliane Brum

A todos que são pais...vamos repensar a educação de nossos jovens para que consigam crescer nesse mundo... Vanessa Gerhard Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor. Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade. Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste. Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes. Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade. É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é umdireito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer. A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”?É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado?Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude. Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa. Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir. Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande. Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito. Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência. Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba. ELIANE BRUM, Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo).