Todos que me conhecem bem sabem que tenho um sonho de conhecer a Grécia. Não sei se tem a ver com alguma coisa de vidas passadas, se foi influência do meu padrinho que me trouxe imagens maravilhosas da Grécia quando esteve lá ou se é uma coisa minha mesmo, só sei que sou louca para colocar os pés nesse país. Na faculdade quando estudamos a origem da Pedagogia, meus olhos brilhavam tanto na aula sobre a Grécia, que a professora parou uma aula para comentar:
- Nossa menina, você deve gostar muito desse assunto ou deve estar muito feliz, seus olhos estão brilhando hoje!
Não foi à toa que semestres depois puxei a eletiva "Mitologia" para fazer e amei.
Agora, dez anos de formada, estou fazendo um projeto com minhas colegas de série sobre a Grécia e estou encantada ao ver que passo esse encanto para os meus alunos.
Descobrir sobre as Olimpíadas, sobre a culinária, sobre os templos e ilhas gregas têm sido bem interessante, mas nada vem fascinando mais meus pequenos do que os mitos gregos.
Ver os olhos deles brilhando diante do filme do "Hércules", conhecer o voo de Ícaro, se encantar com o cavalo de Troia, temer por um instante a Medusa e todos os monstros terríveis, discutir sobre dinheiro na aula de Matemática depois de ouvir o conto "O Toque do Rei Midas", sonhar em ter um cavalo como Pégaso... todos esses contos têm feito meus alunos vibrar, e estou muito feliz com isso.
Essa semana um pequeno trouxe uma pesquisa sobre a marca Nike. Meus pequenos consumistas logo ficaram curiosos, o que o tênis teria a ver com o projeto? Foi enriquecedor poder vê-lo explicar para os demais que essa marca usou o nome da deusa da vitória "Niké" para dar o nome aos seus produtos ligados ao esporte e agora, tudo que meus alunos têm dessa marca, eles chamam de "Niké" ao invés de Nike.
A mitologia como um todo dá pano pra manga em se tratando de projetos para crianças e estou feliz em ter acertado mais uma vez. Quem sabe um dia, eu viajo tanto nesses materiais e nesses projetos, que acabo conhecendo essa terra mágica. (Assim como fiz com o projeto da Austrália em 2000 e acabei conhecendo 10 anos depois!).
É isso...
Vanessa Gerhard
domingo, 19 de agosto de 2012
quinta-feira, 19 de julho de 2012
Jovem com Síndrome de Down tira nota máxima no vestibular italiano
Recebi essa reportagem pela internet e resolvi compartilhar... qualquer maneira de inclusão vale a pena...
Enrico Cancelli foi mais forte que as dificuldades
ROMA, quarta-feira, 18 de julho de 2012 (ZENIT.org)
- Enrico Cancelli, jovem de Trieste, no nordeste italiano, deu um
pontapé nas limitações impostas pela síndrome de Down e tirou a nota
máxima no esame di maturità, que serve para a admissão à universidade e equivale, de certa forma, ao vestibular brasileiro.
Diploma profissional
O momento da virada para o estudante veio em 2009, quando ele começou a usar uma técnica que permite superar as lacunas entre a capacidade cognitiva e expressiva.
Enquanto aperta nas mãos o seu certificado de aprovação, Enrico sorri, perplexo e travesso. É o mesmo sorriso que ele mostra minutos mais tarde, posando para as fotos com a professora e com o conselho. O exame é um desafio para todos e o primeiro grande encontro com a vida. Mas para Enrico Cancelli, os encontros com a vida começaram bem antes.
A síndrome de Down, combinada com uma severa dificuldade de comunicação, transformou numa cruel ladeira acima o que para outros é a estrada normal da vida. Mas a resiliência é uma virtude que não falta para Enrico. O sucesso na escola é apenas o seu teste mais recente.
Seguindo um percurso misto, reduzido em tempo, mas não em qualidade, Enrico trabalhou em uma empresa de Monrupino, acompanhado pelo tutor Haron Marucelli, que o preparou para a criação de ovinos. A criação de ovelhas, aliás, foi o tema do exameem que Enricoconquistou a nota máxima. E será também a área em que ele quer trabalhar no futuro.
Comunicação facilitada
Enrico Cancelli aprendeu a técnica da comunicação facilitada, implementada na Austrália nos anos 1970 graças ao trabalho de uma associação de apoio a portadores de necessidades especiais.
Nascido com a síndrome de Down, Enrico foi uma criança feliz nos primeiros anos de escola, propenso a cantar e a brincar. Na adolescência, porém, veio a consciência da diversidade e começaram os primeiros golpes morais. Ele se fechou, parou de falar, parou de cantar. Deixou de se comunicar. "A reviravolta no caminho da aprendizagem, e da vida, veio em 2009, quando nos aproximamos da técnica de comunicação facilitada, que foca nas pessoas pessoas deficientes que têm transtornos de linguagem", explica Bianca Mestroni, mãe de Enrico.
A comunicação facilitada serve de ponte entre as competências cognitivas e expressivas, usando teclados ou letras do alfabeto. “É necessária a presença de um facilitador: uma pessoa treinada que, sem intervir, sustenta a mão, o punho, o cotovelo ou o braço do paciente para que ele digite em um teclado de computador”, explica Michela Manca, professora de Enrico. O objetivo final é que o paciente conquiste a autonomia comunicativa que lhe falta.
"Eu sofria como um cachorro"
Assim que conseguiu se comunicar com os outros, Enrico contou um pouco do acúmulo de sofrimentos que suportou durante anos.
Desde 2009, ele renasceu. Apenas três meses após o início da experiência, Enrico escreveu: "Até agora, eu não sabia como responder, e sofria como um cachorro na minha deficiência". Duas pessoas o acompanharam na trajetória de maneira muito especial: a professora Michela, que está com ele desde 2009, e Gianna Stabile Bonifacio, sua guia espiritual que o ajudou na catequese e a editar o boletim da paróquia.
Sem a comunicação facilitada, Enrico era descrito como portador de "um grave retardo mental". Depois da experiência, Enrico escreveu na primeira página do seu exame: “Monrupino, oásis feliz onde encontrar a paz e os sonhos dourados de poéticas aspirações! Empregarei todos os meios para permanecer e trabalhar em terras assim tão férteis, correndo irresistivelmente rumo à minha vida resgatada!”.
Diploma profissional
O momento da virada para o estudante veio em 2009, quando ele começou a usar uma técnica que permite superar as lacunas entre a capacidade cognitiva e expressiva.
Enquanto aperta nas mãos o seu certificado de aprovação, Enrico sorri, perplexo e travesso. É o mesmo sorriso que ele mostra minutos mais tarde, posando para as fotos com a professora e com o conselho. O exame é um desafio para todos e o primeiro grande encontro com a vida. Mas para Enrico Cancelli, os encontros com a vida começaram bem antes.
A síndrome de Down, combinada com uma severa dificuldade de comunicação, transformou numa cruel ladeira acima o que para outros é a estrada normal da vida. Mas a resiliência é uma virtude que não falta para Enrico. O sucesso na escola é apenas o seu teste mais recente.
Seguindo um percurso misto, reduzido em tempo, mas não em qualidade, Enrico trabalhou em uma empresa de Monrupino, acompanhado pelo tutor Haron Marucelli, que o preparou para a criação de ovinos. A criação de ovelhas, aliás, foi o tema do exameem que Enricoconquistou a nota máxima. E será também a área em que ele quer trabalhar no futuro.
Comunicação facilitada
Enrico Cancelli aprendeu a técnica da comunicação facilitada, implementada na Austrália nos anos 1970 graças ao trabalho de uma associação de apoio a portadores de necessidades especiais.
Nascido com a síndrome de Down, Enrico foi uma criança feliz nos primeiros anos de escola, propenso a cantar e a brincar. Na adolescência, porém, veio a consciência da diversidade e começaram os primeiros golpes morais. Ele se fechou, parou de falar, parou de cantar. Deixou de se comunicar. "A reviravolta no caminho da aprendizagem, e da vida, veio em 2009, quando nos aproximamos da técnica de comunicação facilitada, que foca nas pessoas pessoas deficientes que têm transtornos de linguagem", explica Bianca Mestroni, mãe de Enrico.
A comunicação facilitada serve de ponte entre as competências cognitivas e expressivas, usando teclados ou letras do alfabeto. “É necessária a presença de um facilitador: uma pessoa treinada que, sem intervir, sustenta a mão, o punho, o cotovelo ou o braço do paciente para que ele digite em um teclado de computador”, explica Michela Manca, professora de Enrico. O objetivo final é que o paciente conquiste a autonomia comunicativa que lhe falta.
"Eu sofria como um cachorro"
Assim que conseguiu se comunicar com os outros, Enrico contou um pouco do acúmulo de sofrimentos que suportou durante anos.
Desde 2009, ele renasceu. Apenas três meses após o início da experiência, Enrico escreveu: "Até agora, eu não sabia como responder, e sofria como um cachorro na minha deficiência". Duas pessoas o acompanharam na trajetória de maneira muito especial: a professora Michela, que está com ele desde 2009, e Gianna Stabile Bonifacio, sua guia espiritual que o ajudou na catequese e a editar o boletim da paróquia.
Sem a comunicação facilitada, Enrico era descrito como portador de "um grave retardo mental". Depois da experiência, Enrico escreveu na primeira página do seu exame: “Monrupino, oásis feliz onde encontrar a paz e os sonhos dourados de poéticas aspirações! Empregarei todos os meios para permanecer e trabalhar em terras assim tão férteis, correndo irresistivelmente rumo à minha vida resgatada!”.
segunda-feira, 16 de julho de 2012
Valorização dos profissionais de educação infantil
Acabo de ler uma pesquisa que declara que as creches e escolas de educação infantil que têm diretores com mais de 15 anos de formados e que tem o salário superior a quatro salários mínimos prezam pela qualidade.
Sinceramente? Sobre os 15 anos de formados tudo bem, eu acredito que quem tem mais anos de formação tem mais experiência e consequentemente pode administrar melhor uma instituição, mas sobre o salário... o que comentar?
Pensem só, se o diretor ganha menos do que quatro salários mínimos quanto ganham os professores, os auxiliares de creches, os cozinheiros e os faxineiros?
Precisa fazer pesquisa para descobrir isso?
Se os profissionais que trabalham com as crianças não são valorizados financeiramente, não ganham o suficiente nem para se sustentar, para comer de maneira decente e para pagar suas contas, como vão investir em aperfeiçoamento e qualidade? Como vão ter alegria de trabalhar com nossas crianças se mal conseguem sobreviver?
É deprimente ver que uma pesquisa "descobrindo" que existam diretores que ganham menos de quatro salários mínimos e que isso faz decair a qualidade do trabalho desenvolvido.
Está na hora da sociedade valorizar os profissionais de educação, afinal são eles que vão contribuir para o futuro de cada criança desse país. Se não valorizam nem quem tem a função de ensinar o básico - os profissionais de educação infantil - quem dirá os profissionais que acompanham o resto da vida escolar de nossas crianças.
Acorda Brasil! Ou isso muda ou não tem como melhorar a educação no país! Não adianta o país dizer que têm todas as crianças na escola, que diminuiu o número de analfabetos, quando os profissionais são desvalorizados dessa maneira...
Vamos pensar no presente da nação investindo em quem faz o presente acontecer!
É isso... Vanessa Gerhard
Sinceramente? Sobre os 15 anos de formados tudo bem, eu acredito que quem tem mais anos de formação tem mais experiência e consequentemente pode administrar melhor uma instituição, mas sobre o salário... o que comentar?
Pensem só, se o diretor ganha menos do que quatro salários mínimos quanto ganham os professores, os auxiliares de creches, os cozinheiros e os faxineiros?
Precisa fazer pesquisa para descobrir isso?
Se os profissionais que trabalham com as crianças não são valorizados financeiramente, não ganham o suficiente nem para se sustentar, para comer de maneira decente e para pagar suas contas, como vão investir em aperfeiçoamento e qualidade? Como vão ter alegria de trabalhar com nossas crianças se mal conseguem sobreviver?
É deprimente ver que uma pesquisa "descobrindo" que existam diretores que ganham menos de quatro salários mínimos e que isso faz decair a qualidade do trabalho desenvolvido.
Está na hora da sociedade valorizar os profissionais de educação, afinal são eles que vão contribuir para o futuro de cada criança desse país. Se não valorizam nem quem tem a função de ensinar o básico - os profissionais de educação infantil - quem dirá os profissionais que acompanham o resto da vida escolar de nossas crianças.
Acorda Brasil! Ou isso muda ou não tem como melhorar a educação no país! Não adianta o país dizer que têm todas as crianças na escola, que diminuiu o número de analfabetos, quando os profissionais são desvalorizados dessa maneira...
Vamos pensar no presente da nação investindo em quem faz o presente acontecer!
É isso... Vanessa Gerhard
quinta-feira, 12 de julho de 2012
Texto de Eliane Brum
A todos que são pais...vamos repensar a educação de nossos jovens para que consigam crescer nesse mundo...
Vanessa Gerhard
Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor. Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade. Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste. Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes. Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade. É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é umdireito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer. A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”?É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado?Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude. Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa. Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir. Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande. Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito. Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência. Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.
ELIANE BRUM, Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo).
quarta-feira, 28 de março de 2012
Falas de criança
Eu eu uma aluna de 6 anos...
Aluna: - Vanessa, você tem medo do escuro?
Eu: - Não, por quê?
Aluna: - Eu não entendo. Todo adulto que eu pergunto diz que não tem medo do escuro, mas nós crianças temos. Por que que nós temos que dormir sozinhas enquanto os adultos dormem com outros adultos?
Comentários e perguntas de crianças ao longo do passeio ao Corcovado:
- Vanessa, por que o nome é Cristo arrebentou?
- Eu gostei de ver a água bendita lá da igreja.
Escrevendo sobre pontos turísticos da nossa cidade:
Eu: - Quem sabe um ponto turístico que a gente viu lá de cima do Corcovado?
Aluno: - A minha casa.
Outro aluno: - Tem também as ilhas cagadas.
Outro aluno: - Eu vi o helicóptero, os barcos...
Tarefa de experimentar frutas...
Aluno: - Eu gostei dessa maçã verde. (Ele estava comendo carambola picadinha!)
domingo, 26 de fevereiro de 2012
O que é o Carnaval para nossas crianças?
Todos os anos nas turmas que leciono, faço perguntas para meus alunos sobre o que eles sabem sobre o Carnaval. Faço tipo uma "tempestade de ideias" e vou registrando no quadro o que eles falam que realmente é vinculado ao Carnaval. Ultimamente essa tarefa tem sido mais difícil, pois tirando algumas famílias - como a minha em que a cultura popular sempre deve ser apresentada - o Carnaval tem sido sinônimo de outros tipos de diversão, que não necessariamente tem a ver com essa festa.
Não condeno essas famílias, acho que cada um deve aproveitar cada feriado da maneira que bem entende, mas me espanto que essas crianças sequer tenham conhecimento sobre o que seja Carnaval.
Quando eu era criança isso era impossível. Só tinha rádio e TV aberta, que sempre apresentava alguma coisa do Carnaval, e nós ficavamos sabendo, pelo menos, que aquela festa existia.
Hoje, as crianças tem muitas atividades, muitas mídias - nem todas mencionam a nossa cultura popular - e nem sempre as famílias valorizam essas coisas, por isso, nos últimos anos tenho escutado coisas como:
"Eu lembro de neve, porque eu sempre vou esquiar com meus pais"
"Eu lembro da minha casa em..."
"Eu lembro do hotel em..."
Aí eu acabo perguntando para essas crianças, mas o que é o Carnaval?
E tenho respostas como:
"É aquela festa que tem aqui na escola que a gente usa roupa de caipira e tem barraquinha de pescaria"
Isso não seria Festa Junina?
Confusão normal? Totalmente! Essa é a única festa popular que algumas crianças acabam participando, porque mal ou bem a escola acaba ensaiando a apresentação e eles aparecem para mostrar aos pais que sabem dançar ou que ainda curtem um pouquinho de Brasil.
Por isso peço aos pais brasileiros:
Mesmo que você não curta Carnaval e não queira participar dessa festa, não negue o prazer de proporcionar ao seu filho (pelo menos aqueles maiores de dois e menores de oito anos, que ainda estão num mundo lúdico) um dia de fantasia, confete e serpentina. Combine com aquela tia maneira, peça a mãe de um coleguinha que você sabe que curte Carnaval que leve o seu filho também, mas deixe a criança conhecer a cultura de Carnaval que a sua cidade prioriza, seja bloco, escola de samba, bailinho... o importante é ter um Carnaval para recordar...
É isso...Vanessa Gerhard
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
O lugar do lúdico no cotidiano escolar
A escola é um lugar de muito aprendizado e esse aprendizado não precisa ser feito apenas de uma maneira formal, com livros, cadernos... Quando falamos de crianças, é importante perceber que elas aprendem mais facilmente quando criam um laço afetivo com o assunto que estão aprendendo, então nada melhor do que apresentar assuntos, temas e conteúdos de forma lúdica. Nessas horas entram os jogos e as brincadeiras..., mas não é qualquer jogo e qualquer brincadeira. A escolha desse material pelo professor deve vir cercada de alguns cuidados.
Do ponto de vista educacional, o jogo deve responder aos interesses específicos das crianças, deve dar oportunidade para que as crianças o transformem, permitindo a sua participação ativa, devem possibilitar uma avaliação da atuação das crianças durante a atividade e devem viabilizar uma relação mais profunda com os conteúdos escolares.
Após pensar nesses itens, o educador deve selecionar o jogo/os jogos que mais combinam com esses objetivos, tendo em vista também os estágios de desenvolvimento de seus alunos e a duração dos jogos, proporcionando assim que o momento lúdico esteja realmente a serviço da aprendizagem.
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